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A força feminina no sistema penitenciário mato-grossense

Filha única. Pai e mãe falecidos. Solteira. Mãe de duas meninas, uma de seis e outra de oito anos, à procura de emprego para sustentar a família. Apesar do cenário difícil, Silvana Lopes, 28 anos na época, não desistiu. Decidida a ser a provedora do seu lar e lutar pela independência financeira, em 2000 ela se tornou agente penitenciária da Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos (Sejudh) e hoje integra um grupo de 2.174 agentes, sendo 676 mulheres.

Atualmente, com 46 anos de idade, a diretora da Cadeia Pública de Rondonópolis acredita que neste Dia Internacional da Mulher os desafios e a força de vencer não acabaram. Ao longo de sua vida ela sempre precisou ser valente. Teve que lutar contra o preconceito por ser mulher, solteira e mãe.

No sistema penitenciário Silvana lembra que também já passou por vários momentos bons e ruins. O mais marcante, segundo a diretora, foi nos primeiros 15 dias de trabalho, quando iniciou sua carreira na Penitenciária Major Eldo Sá Correa, em Rondonópolis. Ela foi refém por quatro dias durante uma rebelião na unidade penal. “Eu só pensava que ia morrer e nas minhas filhas”.

O resultado da rebelião deixou marcas que jamais serão esquecidas por Silvana: um joelho quebrado e cicatrizes das 12 chuçadas que levou. Após esse acontecimento, a agente teria um motivo para desistir: o medo. Com dor e fragilizada, alguns pensaram que ela iria voltar a ser dona de casa, sem emprego e com duas filhas para criar. “Mas eu ressurgir das cinzas. Fiquei mais forte ainda e determinada a continuar na profissão”, lembra.

Silvana é apenas uma das centenas de agentes penitenciarias que precisam deixar em casa a família para encarar um dia de trabalho bruto, com pessoas de histórico difícil em processo de reeducação. À frente da Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto, em Cuiabá, também tem um exemplo de mulher persistente. Ela se chama Elizabeth Ourive, 52, aposentada há sete meses após 31 anos atuando no sistema penitenciário.

Elizabeth é dedicada exclusiva e aceitou ser diretora da unidade. Ela lembra que quando iniciou a carreira sua família ficou preocupada. “Mas eu pensei, nós mulheres precisamos arregaçar a manga e sair pra luta. Se olharmos para os obstáculos não conseguiremos nem levantar o pé do lugar”, diz com firmeza.

Nas unidades, as agentes trabalham em torno dos problemas dos internos por isso algumas exercem tanto o lado emocional como o racional para não deixarem os dilemas de outros afetarem sua convivência familiar. “A partir do momento que os portões se fecham sabemos que dentro da penitenciária há vidas. Querendo ou não a gente acaba absorvendo a história das mães delas, dos filhos e dos maridos que as abandonam. Então, tentamos ajudar na medida do possível, nos solidarizar com a situação, porque, a final também somos mulheres”.

Adriana Silva Duarte Quinteiro, de 40 anos, é agente penitenciária, servidora da Sejudh há 18 anos, dos quais 11 está na direção da Cadeia Pública de Diamantino e quatro anos na Cadeia Pública Feminina de Nortelândia. Ela conta que a maior emoção é encontrar ex-recuperandos trabalhando, com família e reintegrados à sociedade. “Quando iniciamos o processo educacional, há alguns anos, tivemos dois deles que finalizaram os estudos, passaram para Direito e Pedagogia e hoje são muito agradecidos porque a partir da chance que tiveram puderam mudar de vida”.

Diferente da colega de trabalho Elisabeth, Adriana recebeu apoio da família quando resolveu fazer o concurso público. Na época já era casada e mãe, mas trabalhar na área despertava curiosidade e medo. Ser mulher foi um desafio ao adentrar no sistema penitenciário, mas ela tirou de letra as brincadeiras e chacotas e peitou a direção da cadeia masculina de Diamantino, o que causou indignação. “Não aceitavam o comando de uma mulher, mas eu provei que era possível e acabei permanecendo por muitos anos”.

Sobre a diferença de conduzir uma unidade feminina e masculina Adriana diz que do ponto de vista da prática profissional não existe, entretanto entende que as reeducandas exigem sim uma dose a mais de sensibilidade, pois como toda mulher, elas têm alterações hormonais, questões filosóficas, angústias que permeiam os relacionamentos. “Porém, o trabalho de ressocialização é o mesmo, a gente investe naquela pessoa independente do que ela cometeu lá fora, queremos que aproveite a oportunidade para mudar e enxergar uma nova realidade”.



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FONTE: CENÁRIO MATO GROSSO
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