A popularidade de vídeos curtos sobre saúde mental em plataformas como TikTok, Instagram e YouTube tem estimulado um fenômeno que preocupa profissionais da área: o crescimento do autodiagnóstico e da automedicação. A avaliação é da psicóloga clínica Fabianne Barreto e da psicóloga e neuropsicóloga Shirlene Costa, que destacam os riscos da busca por explicações rápidas para sintomas complexos.
Segundo as especialistas, a linguagem simples e o sentimento de acolhimento oferecidos por criadores de conteúdo aproximam o público, mas também facilitam a interpretação equivocada de sinais que fazem parte da experiência humana. “As pessoas encontram na rede social esse espaço inicial de identificação, porém sem acompanhamento profissional o processo pode se tornar perigoso”, observa Shirlene.
Diagnósticos sem respaldo clínico
Pesquisas recentes reforçam o alerta. Um estudo divulgado em 2024 analisou mais de 450 mil postagens em um fórum on-line e concluiu que usuários autodiagnosticados procuravam validação emocional antes de buscar avaliação médica. Outro levantamento, realizado no ano passado com jovens que iniciavam terapia, apontou que a maioria já se atribuía algum transtorno — como TDAH, depressão, ansiedade ou TEA — tendo como única referência conteúdos de internet.
Para Shirlene, o risco aumenta quando sintomas comuns, como cansaço, lapsos de memória ou dificuldade de concentração, são tratados como prova definitiva de um transtorno. “Para chegar a um diagnóstico é necessária investigação aprofundada, no mínimo uma avaliação neuropsicológica”, frisa.
Efeito do algoritmo
Os vídeos mais vistos sobre saúde mental costumam durar entre um e dois minutos, tempo considerado ideal para viralização. A brevidade, porém, favorece a disseminação de explicações simplificadas. Pesquisa publicada no Journal of Autism and Developmental Disorders concluiu que grande parte desse material tem caráter experiencial, com pouca base científica, reforçando generalizações.
Fabianne cita situações em que pais, após assistir a vídeos sobre TDAH, passam a interpretar qualquer comportamento do filho como sinal do transtorno. “A criança não precisa de justificativas, mas de avaliação e suporte especializado”, alerta.
Perigo da automedicação
O problema não se limita ao autodiagnóstico. Estudo de 2025 sobre o uso de redes sociais para buscar informações médicas indica aumento da automedicação. “Tomar remédios sem prescrição pode mascarar sintomas e, a longo prazo, gerar dependência ou agravar o quadro clínico”, explica Shirlene. Ela lembra que, embora medicamentos controlados exijam receita, a venda irregular ainda ocorre em algumas farmácias.
IA como “terapeuta”
A influência da tecnologia não para nas redes. Levantamento da Talk Inc mostrou que um em cada dez brasileiros já recorreu a ferramentas de inteligência artificial para desabafar ou receber conselhos. Um estudante da Universidade Federal de Mato Grosso, que preferiu não se identificar, diz usar um chatbot como diário por não ter condições de pagar sessões de terapia. Para Shirlene, a prática é arriscada: “Quando a pessoa acredita em um diagnóstico incorreto fornecido por IA, pode resistir à avaliação de um profissional e atrasar o tratamento adequado”.
Conteúdo responsável
Apesar dos riscos, as psicólogas reconhecem aspectos positivos quando o conteúdo é produzido por profissionais registrados, com informações científicas e identificação visível de CRM ou CRP. Nesses casos, a divulgação pode reduzir o estigma, facilitar o acesso a informação confiável e incentivar a procura por atendimento especializado.
Fabianne e Shirlene defendem que, ao se deparar com sintomas descritos on-line, o usuário procure avaliação presencial ou remota com psicólogo ou psiquiatra habilitado. “O primeiro passo pode ser a internet, mas o acompanhamento profissional é indispensável para evitar consequências graves”, concluem.
Da Redação do MatoGrossoAoVivo | Com informações de RDNews
