Um vídeo antigo do rapper Emicida voltou a circular nas redes sociais e reacendeu discussões sobre coerência de discurso na indústria cultural. Na gravação, o artista afirma que “a burguesia fede” enquanto se apresenta em um show cujos ingressos custavam até R$ 1.000. Na mesma apresentação, ele vestia uma blusa da marca italiana Gucci, avaliada em aproximadamente R$ 5.000.
A filmagem não é datada com precisão, mas, segundo publicações que compartilharam o conteúdo, o evento ocorreu em São Paulo, diante de um público restrito. A fala, que já havia sido tema de comentários nas redes em outras ocasiões, ganhou novo fôlego nesta semana, impulsionada por perfis que questionam a compatibilidade entre críticas à elite econômica e o consumo de itens de luxo.
Reações nas redes sociais
Usuários de plataformas como X (antigo Twitter), Instagram e TikTok dividiram-se entre reprovação e defesa do músico. Para críticos, a mensagem perde legitimidade quando é proferida em um ambiente considerado elitizado e com preços de ingresso fora do alcance da maior parte da população. “É fácil falar mal da burguesia enquanto se lucra com ela”, escreveu um internauta.
Defensores do rapper argumentam que a frase não se dirige ao consumo pessoal, mas às estruturas de poder responsáveis por desigualdades sociais. “O ponto é sobre concentração de riqueza e privilégios, não sobre usar ou não uma camiseta cara”, publicou outra usuária.
Discurso recorrente
Emicida é conhecido por letras que abordam racismo, desigualdade e violência urbana. Em diversos shows e entrevistas, o artista já criticou abertamente o que chama de “lógica de opressão” exercida pela elite econômica brasileira. A frase “a burguesia fede” aparece em apresentações desde o início da carreira.
No entanto, a repercussão recente intensificou questionamentos a respeito do posicionamento dos chamados artistas “engajados” que circulam em festas patrocinadas por grandes marcas e vestem roupas de grife. Influenciadores e jornalistas especializados em cultura pop lembram que situações parecidas envolvem nomes de diferentes gêneros musicais, inclusive no universo do rap.
Mercado de luxo na música
A presença de artistas em palcos patrocinados por empresas de alto valor de mercado não é novidade no cenário brasileiro. Segundo levantamento da consultoria Euromonitor, as vendas de marcas premium no país cresceram 11% em 2023, impulsionadas por parcerias com celebridades. Concertos exclusivos e camarotes VIP tornaram-se pontos de encontro entre fãs dispostos a pagar valores mais altos e empresas interessadas em associar identidade de marca a artistas de grande alcance.
Madia Mundo Marketing, agência que acompanha ações de marcas no entretenimento, afirma que contratos com músicos normalmente envolvem cláusulas de divulgação, o que inclui uso de peças de vestuário fornecidas pelas grifes patrocinadoras. O relatório mais recente da empresa indica que cachês artísticos vinculados a campanhas de moda de luxo podem chegar a R$ 2 milhões por temporada.
Posicionamento do artista
Até a publicação desta reportagem, Emicida não havia comentado a nova onda de críticas em seus perfis oficiais. Em entrevistas anteriores, o rapper alegou que “incoerências pontuais” não invalidam a luta contra sistemas considerados opressores e que “questionar privilégios é parte do processo de transformação social”.
Da Redação do MatoGrossoAoVivo | Com informações de No Centro do Poder
