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Câmara aprova urgência para projeto de mineração em terra indígena, mas votação fica para abril

Last Updated on: 10 de março de 2022

A Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira (9/3) requerimento de urgência do projeto que libera mineração em terra indígena, mas um acordo do presidente Arthur Lira (PP-AL) com a oposição adiou a votação do mérito do texto para abril, após a análise de um grupo de trabalho.

A votação ocorreu enquanto do lado de fora do Congresso era realizado o Ato pela Terra contra o que chamam de pacote da destruição, uma série de projetos criticados por ambientalistas.

A urgência foi aprovada por 279 a 180 -precisava da maioria absoluta de deputados para passar (pelo menos 257). Antes da votação, Lira anunciou a criação de um grupo de trabalho para debater a proposta, que deve ser votada em plenário até 14 de abril.

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Durante a sessão, Lira disse que, desde terça (8), negociava um acordo com líderes da base e da oposição sobre a votação do projeto.
“Nós avançamos com relação à base e oposição. Como não temos instaladas comissões, nós iremos autorizar a formação de um grupo de trabalho, em tese, composto de 20 deputadas e deputados, na proporção de 13 membros da maioria e 7 membros da minoria, com um prazo acertado entre líderes da base e líderes da oposição em 30 dias, para que o projeto venha a plenário em meados da primeira quinzena de abril, mais ou menos entre os dias 12 e 14”, disse.

Os membros do grupo serão indicados pelos partidos até sexta-feira (11).
O deputado Rodrigo Agostinho (PSB-SP) criticou a aprovação da urgência. “A boiada passando mais uma vez. Começou a temporada de invasão de terras indígenas e uma nova corrida do ouro. Perdem o meio ambiente e os direitos humanos”, disse.

Ainda que passe na Câmara, a expectativa é que o Senado segure a votação do projeto, a exemplo do que fez com outros textos controversos, como o que trata de regularização fundiária e o de licenciamento ambiental.

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No ato de artistas, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), disse que não vai atropelar a discussão sobre os projetos. “Nenhum deles foi objeto, da minha parte, de um açodamento para se colocar no plenário do Senado Federal e assim não será”, disse.

“Nenhum desses projetos será diretamente pautado no plenário do Senado Federal sem a apreciação e tramitação devida no âmbito das comissões permanentes e temáticas da casa.”

Na avaliação do senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), o projeto é absolutamente desnecessário. Ele rechaça o pretexto oficial usado pelo governo para pressionar pela aprovação da urgência -uma eventual crise de fornecimento de fertilizantes provocada pela guerra na Ucrânia.

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“Não existe nenhuma demanda real de fertilizantes que vá ser atendida por uma eventual mineração em terras indígenas. O que existe é um compromisso do governo Bolsonaro com os criminosos que trabalham com especulação imobiliária e grilagem de terras”, disse.

“O meu estado de Sergipe tem todas as condições e é a única fábrica do Hemisfério Sul de potássio, em andamento. Você precisa investir lá, onde dano e risco ambiental já foram precificados. Abrir agora uma seara de implantação de minas na região amazônica sem nenhum tipo de estudo mais qualificado não tem nenhum efeito, a não ser esse, de especulação e destruição do meio ambiente.”

O MPF (Ministério Público Federal) aponta “vício insanável”, “falácia” e “patrocínio de conflito de interesses” no projeto e prevê contestação da lei, em caso de aprovação pelo Congresso, nas mais de dez ações movidas na Justiça Federal contra exploração de garimpo em territórios demarcados na Amazônia.

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De interesse direto de Bolsonaro, o projeto foi apresentado ao Congresso pelo ministro de Minas e Energia, almirante Bento Albuquerque, e pelo então ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, hoje desafeto do presidente e pré-candidato à Presidência.

Procuradores da República com atuação na região da Amazônia afirmaram à reportagem que, caso o projeto de lei prospere, o MPF seguirá contestando iniciativas de mineração em terras indígenas.
Para isso, o procedimento previsto é uma arguição de inconstitucionalidade incidental, em que as ações apontariam a lei como inconstitucional, para que a Justiça, então, decida o mérito da causa.

O MPF já moveu ações civis públicas contra requerimentos de mineração em terras indígenas na Amazônia, protocolados na ANM (Agência Nacional de Mineração).
A prática da ANM é manter esses requerimentos suspensos, sem anulá-los, segundo o MPF. Há ações do tipo na Justiça Federal no Amazonas, Pará, Roraima e Amapá.

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Outras ações contestam empreendimentos de mineração com impacto em terras indígenas vizinhas ou desenvolvidos em terras ainda não demarcadas.
Para o MPF, o argumento de Bolsonaro sobre a necessidade de terras indígenas para exploração de potássio -base para fertilizantes usados na agricultura em larga escala- não faz sentido, pois as minas com potencial de exploração ficam fora dessas áreas demarcadas.

“O estado de beligerância, de ameaça externa ou mesmo a declaração de guerra entre dois ou mais países não autorizam a diminuição do sistema de proteção internacional dos direitos humanos, particularmente das minorias e de grupos vulneráveis”, afirmam integrantes da Câmara de Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais, colegiado que funciona no âmbito da PGR (Procuradoria-Geral da República).

O colegiado divulgou uma nota técnica na noite desta terça (8) em que aponta a inconstitucionalidade do projeto de lei.
Os subprocuradores-gerais que integram a câmara já elaboraram outras duas notas técnicas contra o projeto de lei que libera mineração em terras indígenas, uma em 2020 e outra em 2021. O tom das duas notas também é de ampla crítica à proposta do governo Bolsonaro.

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Segundo a câmara da PGR, há 4.000 procedimentos minerários que incidem em 216 terras indígenas. São basicamente pedidos para exploração por pessoas físicas e jurídicas, sem validade em razão da ilegalidade desse tipo de exploração.

O projeto de lei tratado como prioritário por Bolsonaro contém um “vício insanável”, pois tenta regulamentar mineração em terras indígenas sem um prévio debate do Congresso sobre o interesse público da União, conforme o colegiado da PGR.
Falta uma lei complementar para isso, e por isso a proposta significaria um atropelo à Constituição Federal.

“Este projeto de lei patrocinou o conflito de interesses e direitos que estão pacificados no corpo da própria Constituição da República”, afirmam os subprocuradores.
“Não pode o legislador ordinário baixar uma política minerária que derrogue todo um capítulo da Constituição, tornando letra morta dispositivos constitucionais que vieram a lume na Assembleia Nacional Constituinte, como instrumento de reparação de uma dívida histórica de séculos de opressão contra os povos indígenas no Brasil”, dizem os integrantes da PGR.

O projeto de Bolsonaro parte de uma “premissa falsa” sobre a possibilidade de exercer a atividade econômica minerária em terras indígenas e se traduz em “falácia” ao fazer uma equivalência entre atividades econômicas e atividades estratégicas na mineração, argumentam.

Além de desrespeitar a Constituição, o projeto afronta a convenção número 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), uma vez que “não houve consulta prévia às comunidades indígenas afetadas”, dizem os integrantes da PGR.

Por Danielle Brant e Vinícius Sassine

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FONTE: AGÊNCIA BRASIL / TERRA BRASIL
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