Um bloco de carnaval carioca desfilou recentemente com o objetivo de desafiar preconceitos e promover a integração das trabalhadoras do sexo da Vila Mimosa. O Bloco Zona do Mangue e Vila Mimosa percorreu as ruas da Praça da Bandeira, no Rio de Janeiro, na noite chuvosa da última sexta-feira (6), em uma iniciativa que busca valorizar a região historicamente estigmatizada. Apesar dos apelos feitos pelo locutor no carro de som, que pedia aplausos e respeito às mulheres da Vila Mimosa, a maioria delas preferiu observar a folia das calçadas e do interior dos bares, mantendo uma certa distância da celebração.
Essa dinâmica foi exemplificada por Estrela, de 58 anos. Ela optou por dançar discretamente nas proximidades, explicando que, embora se sinta à vontade em seu ambiente de trabalho, o bloco representava um contexto diferente. Estrela expressou o desejo de não atrair atenção excessiva e o respeito pela proposta do evento, preferindo a discrição.
Desafios da Integração e Rompimento de Barreiras
Cleide Almeida, presidente do bloco e assistente social, detalhou os obstáculos enfrentados para uma participação mais ativa das trabalhadoras. Segundo ela, algumas se afastam por medo de serem filmadas e expostas na mídia. A integração mais profunda, que envolveria as trabalhadoras desfilando junto ao bloco, é dificultada pela ausência de apoio financeiro e de projetos sociais contínuos, que, conforme Cleide, são essenciais para essa aproximação.
Felipe Vasconcellos, um dos líderes da banda “Enxota que eu vou” – grupo que acompanha o bloco há três anos – identificou as barreiras socioeconômicas como um dos motivos para a menor participação e protagonismo dessas mulheres. Ele salientou a complexidade de suas rotinas, que incluem longas jornadas de trabalho, responsabilidades com filhos e família, o que, muitas vezes, inviabiliza o interesse ou tempo para se engajar em atividades como cursos de percussão ou outras iniciativas propostas.
Carnaval como Ferramenta de Valorização Comunitária
Para Laísa, de 21 anos, que trabalha há cinco na Vila Mimosa, o bloco representa uma força positiva para a comunidade, mesmo sem sua participação direta nos desfiles. Ela enxerga o evento como uma fonte de alegria que contribui para a valorização da região e de suas trabalhadoras, além de ser um importante alerta sobre o preconceito social ainda presente. Laísa ressaltou a importância do trabalho na Vila Mimosa para sua subsistência, destacando que é sua única forma de garantir o aluguel e as despesas domésticas.
A presidente Cleide Almeida reiterou que o objetivo principal dos desfiles é alterar a percepção negativa sobre o local. Ela convidou a população carioca a conhecer a realidade das trabalhadoras sexuais, enfatizando que são mulheres como quaisquer outras – mães, irmãs, filhas e avós –, e que a festa serve como um bloco para derrubar tabus e promover o conhecimento de suas histórias, sem julgamentos.
Histórias Pessoais que Quebram Tabus
A trajetória de Estrela, que preferiu acompanhar a festa de longe, exemplifica a complexidade e a diversidade dessas vidas. Técnica de enfermagem de formação, ela buscou na Vila Mimosa um rendimento extra após ser vítima de um golpe que a fez perder mais de R$ 100 mil. Após quitar a dívida, decidiu permanecer devido aos altos ganhos, orgulhando-se de ter criado dois filhos e de não dever nada à sociedade, buscando agora manter e expandir seu patrimônio.
A administradora Daniela Tarta, que visitou o bloco pela primeira vez, manifestou seu desejo de se aproximar dessa população frequentemente menosprezada. Ela vê o espaço como democrático e aberto, habitado por pessoas diversas, assim como em qualquer outro lugar, e expressou seu apoio.
Raízes Históricas e Transformações Urbanas da Região
A Vila Mimosa é a sucessora histórica da antiga Zona do Mangue, que funcionou como o principal centro de prostituição do Rio de Janeiro entre o final do século XIX e o início do século XX, localizada na área central da cidade, próximo ao Canal do Mangue e à atual Avenida Presidente Vargas. Ao longo do século XX, mudanças urbanísticas e políticas de “ordenamento” do centro da cidade levaram à transferência de bares e casas noturnas. A Praça da Bandeira, com seus galpões e terrenos industriais, começou a acolher as trabalhadoras, e a Vila Mimosa se consolidou como um ponto de trabalho sexual em meados da década de 1990.
Da Redação do MatoGrossoAoVivo | Com informações de MatoGrossoAoVivo
