O consumo abusivo de bebidas alcoólicas entre brasileiras mais que dobrou em menos de duas décadas, passando de 7,8% em 2006 para mais de 15% atualmente. O dado foi apresentado nesta terça-feira (16) durante audiência pública da Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado, que discutiu medidas para enfrentar o crescimento do alcoolismo entre mulheres.
Integrantes do governo, de entidades da sociedade civil e de organizações de saúde reforçaram que o transtorno por uso de álcool é uma doença e requer atendimento especializado. Eles alertaram que a substância é fator de risco para mais de 200 enfermidades, além de agravar problemas de saúde mental.
Propostas em debate
Entre as recomendações, destacaram-se a ampliação de impostos sobre bebidas alcoólicas e a imposição de limites mais rigorosos à publicidade, especialmente nas redes sociais. A senadora Leila Barros (PDT-DF), que conduziu parte da reunião, afirmou que não existe nível seguro de ingestão de álcool e citou estudo da Fiocruz que estimou em R$ 18,8 bilhões, em 2019, o custo do consumo para o país.
Leila celebrou a aprovação, pela CAS, do PL 2.880/2023, que institui estratégia específica no Sistema Único de Saúde para mulheres usuárias ou dependentes de álcool. A parlamentar disse que a votação da proposta no Plenário é prioridade da Bancada Feminina.
Depoimento e apoio virtual
Presidente da Associação Alcoolismo Feminino (AAF), Graziella Santoro relatou que está sóbria há 17 anos e ressaltou o peso do estigma social na decisão de buscar ajuda. Segundo ela, o atendimento da AAF é 100% virtual e já acolheu mais de 2.300 brasileiras e estrangeiras.
Impactos mais rápidos e severos
A vice-presidente da Associação Brasileira de Estudos em Álcool e Drogas (Abead), Helena Ferreira Moura, lançou a cartilha “Nada sobre nós sem nós” e lembrou que, em comparação com homens, mulheres sofrem danos orgânicos mais graves mesmo com doses menores, além de riscos adicionais na gestação e na amamentação. Culpa, vergonha e medo de perder a guarda dos filhos figuram entre as principais barreiras à procura de tratamento.
Publicidade dirigida a jovens
Juliana Ferreira, da ACT Promoção da Saúde, criticou a forte presença de anúncios de bebidas em plataformas digitais, conteúdo que também alcança crianças e adolescentes. Ela apoiou o PL 2.502/2023, que amplia restrições a propagandas de álcool, tabaco e outros produtos.
Números do SUS e mortalidade
Diretor do Departamento de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas do Ministério da Saúde, Marcelo Kimati Dias informou que 16.908 mulheres foram atendidas pelo SUS em 2023 por transtornos ligados ao álcool. Já Luciana Monteiro Vasconcelos Sardinha, da Vital Strategies, apontou cerca de 105 mil mortes anuais no Brasil diretamente relacionadas ao consumo.
Entre outras sugestões apresentadas estão campanhas de prevenção com recorte de gênero em escolas, famílias e comunidades; programas que envolvam meninas e adolescentes; e adoção de políticas públicas baseadas em evidências. A audiência foi solicitada pelos senadores Flávio Arns (PSB-PR), Damares Alves (Republicanos-DF) e Leila Barros, e presidida, em parte, pela vice-presidente da CAS, senadora Dra. Eudócia (PL-AL). O colegiado é comandado pelo senador Marcelo Castro (MDB-PI).
Sem votação prevista sobre medidas tributárias ou publicitárias, os parlamentares se comprometeram a manter o tema na pauta e a acompanhar a tramitação dos projetos de lei em curso.
Da Redação do MatoGrossoAoVivo | Com informações de Agência Senado
