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Fundos obscuros da Faria Lima concentram R$ 55 bilhões sob suspeita de lavagem de dinheiro

Uma investigação do portal Metrópoles identificou 177 fundos de investimento sediados na região da Avenida Faria Lima, em São Paulo, que operam com pouca ou nenhuma transparência e acumulam, juntos, patrimônio líquido de aproximadamente R$ 55 bilhões. Os veículos financeiros, muitos deles fechados e fora da Bolsa de Valores, são apontados por órgãos de controle como potenciais instrumentos para lavagem de dinheiro, blindagem patrimonial e fraudes envolvendo organizações criminosas, empresários e políticos.

Como funcionam os “caixa-preta”

Dos 177 fundos analisados, 71% tiveram auditorias independentes suspensas por falta de documentação essencial; nos demais 29%, não há qualquer parecer de auditoria. Cento deles contam com um único cotista e, em 71 casos (38%), o investidor exclusivo é outro fundo, criando camadas que dificultam a identificação do beneficiário final. Pelo menos 20 desses veículos aparecem em investigações sobre sonegação, fraudes ou outros crimes.

A Polícia Federal e a Receita Federal já haviam descrito essas características nos alvos das operações Quasar e Tank, deflagradas para apurar lavagem de dinheiro no setor de combustíveis. A PF recolheu computadores e celulares de administradoras no dia 28 de agosto e pretende aprofundar a apuração sobre estruturas semelhantes que possam estar servindo a outras organizações criminosas.

Gestoras sob escrutínio

Seis instituições financeiras da Faria Lima concentram a administração dos fundos identificados com fragilidades: Altinvest, FIDD, Genial, Planner, Reag e Trustee. Todas já foram citadas em diferentes operações policiais ou questionadas na Justiça para revelar a cadeia de cotistas.

A Reag responde pela maior fatia: 72 fundos que somam cerca de R$ 45 bilhões. Desses, 47 têm outros fundos como únicos investidores. A gestora nega qualquer ligação com o crime organizado, afirma atuar em conformidade com a lei e anunciou, após buscas da PF, a saída de seu fundador José Carlos Mansur da sociedade.

Já a Planner declarou que todos os seus fundos possuem demonstrações financeiras publicadas na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e que fornece a lista de cotistas apenas mediante ordem judicial ou solicitação de órgãos reguladores. A Trustee informou ter renunciado à administração de todos os seus fundos antes da Operação Carbono Oculto, alegando inconformidades cadastrais. O Banco Genial disse ter recebido, em 2024, a gestão de um fundo suspeito inicialmente estruturado por terceiros e suspendeu o serviço até a conclusão das investigações.

Casos emblemáticos

Entre os episódios relatados na série de reportagens estão:

Em pelo menos dois processos, administradoras de fundos resistiram a ordens judiciais para revelar a identidade dos cotistas. Quando as informações são finalmente repassadas, com frequência surge um novo fundo como beneficiário, prolongando o rastro de sigilo.

Perspectiva regulatória

Diante das descobertas, a Receita Federal estuda impor a obrigatoriedade de informar o CPF ou CNPJ do beneficiário final nas bases da CVM, medida que busca reduzir as brechas usadas para ocultar a origem dos recursos.

Especialistas ouvidos na investigação reconhecem que estruturas desse tipo não são necessariamente ilegais, mas alertam que a combinação de sigilo, ausência de auditoria e concentração de cotistas cria ambiente propício para práticas ilícitas e dificulta a atuação de autoridades judiciais e fiscais.

Consultadas, Altinvest e FIDD não se manifestaram. A defesa da Polishop informou que não comenta processos em andamento. O Roldão Atacadista negou vínculo societário ou de gestão com o fundo proprietário do imóvel em São Vicente e afirmou que a negociação segue normas da CVM. O Jockey Club de São Vicente declarou desconhecer ação judicial sobre a venda do terreno e considerou a transação legítima.

Enquanto a discussão sobre transparência avança, os 177 fundos identificados permanecem sob lupa de PF, Receita e Judiciário, que tentam abrir a “caixa-preta” de um mercado capaz de movimentar bilhões longe dos holofotes.

Da Redação do MatoGrossoAoVivo | Com informações de RDNews

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