A socióloga Olga Lustosa recorre às teorias do pensador polonês Zygmunt Bauman para explicar por que alianças partidárias e manifestações de suporte público se dissolvem com rapidez no cenário eleitoral brasileiro. No artigo publicado no portal RDNews, a autora afirma que a chamada “modernidade líquida” — conceito criado por Bauman para descrever relações sociais marcadas pela instabilidade — também se reproduz na política, onde “apoio não significa compromisso”.
Segundo Lustosa, o rompimento de vínculos duradouros entre eleitores, candidatos e legendas ganhou força à medida que o individualismo se impôs, a confiança em projetos de longo prazo diminuiu e o debate público passou a circular em redes sociais, ambientes que privilegiam mensagens curtas e de forte impacto emocional. Nesse contexto, o voto deixou de ser fidelizado e passou a ser influenciado pelo humor do momento, alimentado por narrativas de fácil consumo.
Utilidade define o tempo de cada aliança
A colunista sustenta que, assim como nas relações pessoais descritas por Bauman, a lógica da conveniência dita a duração dos acordos políticos. Quando deixam de oferecer vantagens imediatas, elogios, fotos e declarações de apoio desaparecem, cedendo espaço aos cálculos de curto prazo. Para Olga Lustosa, partidos, ideologias e programas — outrora pilares de uma candidatura — não têm mais força para garantir engajamento permanente.
O fenômeno também alcança bastidores de campanhas, onde pré-candidatos exibem parcerias em eventos públicos mesmo cientes de que, adiante, ajustes partidários podem inviabilizar a continuidade do pacto. “O laço político frouxo evita obrigações e preserva a liberdade de entrar ou sair de um projeto sem culpa”, escreve.
Eleitor age como consumidor
Citados no texto, estudos de Bauman apontam que o cidadão passou a encarar a política de forma semelhante à relação com produtos: avalia, experimenta e descarta. Esse comportamento, descreve Lustosa, favorece o avanço de discursos antissistema e líderes “reativos”, mais empenhados em performance do que em resultados práticos.
Ao mesmo tempo, a instabilidade dos apoios estimula a polarização. Para a socióloga, a “política líquida” alimenta sentimentos de medo e ressentimento, enfraquece espaços de diálogo e dificulta alianças duradouras. Bauman, lembra ela, não apresenta soluções no livro Modernidade Líquida; limita-se a diagnosticar as transformações que tornam os laços frágeis na vida social e, por consequência, na arena eleitoral.
No encerramento da coluna, Olga Lustosa reforça que, diante desse cenário fluido, apoios políticos devem ser interpretados como posicionamentos circunstanciais, sujeitos a revisão tão logo percam sua utilidade estratégica.
Da Redação do MatoGrossoAoVivo | Com informações de RDNews
