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Bolívia classifica PCC e CV como terroristas, contrariando Brasil

O presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, declarou que organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) configuram uma forma de terrorismo. Essa posição contraria diretamente o governo brasileiro, mesmo após uma reunião bilateral com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Palácio do Itamaraty, onde ambos os países assinaram um acordo de cooperação para combater o crime organizado transnacional.

Paz explicou sua perspectiva, afirmando que “O grau de classificação do terrorismo é múltiplo, é diverso, mas para nós, ter feito o que fizemos no dia a dia é central em nossa missão, contra o crime organizado, contra as máfias, mas contra o terrorismo, porque são parte de um ciclo de terrorismo”. Essa categorização das facções brasileiras alinha-se a uma pauta defendida pelo governo de Donald Trump, com quem o líder boliviano se encontrou no início de março durante a cúpula “Escudo das Américas”, realizada em Miami.

Posição Brasileira e Preocupações

O governo Lula, por sua vez, resiste à inclusão do PCC e do CV na categoria de organizações terroristas. Análises feitas pelo Palácio do Planalto e pelo Itamaraty sugerem que tal medida poderia criar um arcabouço legal para a imposição de sanções e permitir uma atuação mais agressiva de Washington no combate ao narcotráfico na região. Há um receio de que isso possa justificar operações militares ou outras ações unilaterais dos Estados Unidos fora de seu próprio território.

Internamente, o governo brasileiro também se preocupa com a possibilidade de que o enquadramento das facções como terroristas seja explorado politicamente pela oposição durante futuras campanhas eleitorais. O chanceler Mauro Vieira já havia manifestado formalmente essa preocupação ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, em uma conversa telefônica.

Cooperação Bilateral e Atritos

Apesar das divergências na classificação do crime organizado, o acordo assinado pelos dois governos em Brasília prevê uma ampla cooperação para prevenir e reprimir tráfico de drogas e de pessoas, contrabando, roubo de veículos, lavagem de dinheiro, mineração ilegal e crimes ambientais. A parceria inclui ainda a busca por fugitivos e o intercâmbio de informações entre as forças policiais.

O encontro, no entanto, não foi isento de atritos. Paz, que havia participado da cúpula “Escudo das Américas” de Trump em Miami – evento que excluiu Brasil, México e Colômbia –, acusou o Brasil de “exportar violência” para o país vizinho, declaração que gerou incômodo nos bastidores da reunião. Lula, por outro lado, ressaltou que “Brasil e Bolívia estão unidos na preocupação com a segurança pública” e que o acordo “renova nosso compromisso com o combate ao crime organizado dos dois lados da fronteira”. Além disso, foram firmados acordos sobre cooperação turística e interconexão elétrica entre o Departamento de Santa Cruz e Corumbá.

Prisão de Narcotraficante e Conexões

A recente prisão do narcotraficante uruguaio Sebastián Marset, de 34 anos, e sua imediata extradição para os Estados Unidos, reforçaram a aproximação boliviana com Washington. A captura ocorreu em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, três dias antes do encontro de Paz com Lula. Marset estava entre os cinco narcotraficantes mais procurados pela DEA e foi detido junto com membros de sua equipe de segurança, com apreensão de armas de grosso calibre.

O Departamento de Estado dos EUA havia oferecido uma recompensa de US$ 2 milhões por informações que levassem à sua prisão. Em uma nota publicada em redes sociais, o Escritório de Assuntos Internacionais de Narcóticos e Aplicação da Lei do Departamento de Estado celebrou a operação: “O reinado de terror e caos de Sebastian Marset chegou ao fim. Graças à liderança do presidente Rodrigo Paz e à crescente cooperação entre as forças policiais dos EUA e da Bolívia, o notório narcotraficante Marset enfrentará a justiça. O Escudo das Américas está tornando nossa região mais segura e forte.”

Marset mantinha conexões diretas com o PCC. Em outubro de 2025, ele apareceu em um vídeo com armas longas ao lado de pessoas encapuzadas exibindo símbolos da facção brasileira, ameaçando iniciar uma guerra na fronteira entre Brasil, Bolívia e Paraguai. Investigações apontam que ele coordenava o envio de cocaína da Bolívia para o Brasil e cultivava vínculos com a máfia italiana ‘Ndrangheta, com carregamentos destinados à Europa. Em maio de 2025, Santa Cruz de la Sierra também foi palco da prisão de Marcos Roberto de Almeida, conhecido como Tuta, apontado como um dos chefes do PCC.

Ao ser questionado sobre sua postura de manter interlocução simultânea com Washington e Brasília, Paz alegou que a prioridade sempre será a Bolívia. “Me preocupa mais que a Bolívia entenda seu novo papel. Se em oito dias a Bolívia pode estar com Trump e com Lula, deem um crédito à Bolívia”, declarou o presidente boliviano, reforçando a autonomia de seu país na política externa.

Da Redação do MatoGrossoAoVivo | Com informações de Google Notícias

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