O investigador da Polícia Civil de São Paulo Cyllas Salerno Elia Júnior, fundador e presidente da fintech 2GO Bank, foi preso temporariamente no último domingo (14/9) sob acusação de integrar um esquema que movimentou centenas de milhões de reais para organizações criminosas ligadas a cidadãos chineses no Brasil.
Fintech abriu conta de empresa de fachada
Segundo inquérito obtido pelos investigadores, a 2GO Bank foi responsável por abrir a conta da RMD Administração, companhia criada por Ricardo Moraes Daffre e apontada como peça central na lavagem de dinheiro oriundo de fraudes digitais. Entre novembro de 2021 e abril de 2023, a RMD administrou aproximadamente R$ 480 milhões. No mesmo intervalo, a 2GO transferiu mais de R$ 5 milhões para a RMD e recebeu dela outros R$ 700 mil. Cyllas ainda teria recebido R$ 120 mil em sua conta pessoal.
Além de compartilhar transações, 2GO Bank e RMD dividiam o mesmo endereço comercial, uma sala em Indianópolis, zona sul da capital paulista. Para a Polícia Civil, a proximidade estrutural reforça o elo entre as empresas e o objetivo de mascarar a origem dos recursos.
Elo com TGC Variedades e líderes chineses
Aos investigadores, a Corregedoria da Polícia Civil indicou que RMD, 2GO Bank e TGC Variedades LTDA — controlada pelo chinês Lin Chen — formavam um “conjunto complexo” para repetidas operações de lavagem. Documentos apontam que Yao Ji e Xingguo Li, identificados como líderes do grupo, receberam mais de R$ 1,5 milhão da TGC entre fevereiro e agosto de 2022, por meio de transferências fracionadas (técnica conhecida como smurfing).
Recrutamento de laranjas na periferia
O esquema contava com a participação de “correntistas”, moradores da zona leste paulistana pagos entre R$ 100 e R$ 150 para fornecer dados pessoais e selfies com documento de identidade. Com essas informações, contas eram abertas em diversas fintechs e usadas para receber valores de vítimas de golpes on-line.
Um caso que deu origem ao inquérito envolve um morador de Rosana (SP) que perdeu R$ 30 mil ao investir, via Pix e TED, em um site falso de comércio eletrônico. O dinheiro foi rapidamente redistribuído pelas contas de fachada.
Alerta interno de instituição financeira
Relatórios de contra-inteligência da Stone identificaram, em 2022, contas de pessoas físicas que movimentavam milhões em poucos dias. Ao menos oito contas foram bloqueadas; uma delas recebeu mais de R$ 200 mil em três dias e registrou mais de mil transações. Juntas, essas oito contas movimentaram R$ 1,5 milhão em menos de uma semana.
Terceira prisão em menos de um ano
Esta é a terceira detenção de Cyllas. Em 26 de novembro de 2023, ele foi alvo da Operação Tai-Pan, da Polícia Federal, que investigava um fluxo de R$ 6 bilhões em cinco anos. Solto em janeiro, voltou a ser preso em fevereiro de 2024 na Operação Hydra, desencadeada após delação de Vinícius Gritzbach — morto em 8 de novembro de 2023 —, que revelou uso do 2GO Bank para lavar recursos do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Na detenção de domingo, a Corregedoria apura também a participação do policial em golpes aplicados a moradores do Jardim Pantanal, bairro da zona leste atingido por enchentes no início do ano.
A reportagem procurou a defesa de Cyllas, que não respondeu até o fechamento deste texto. Os advogados dos demais investigados não foram localizados.
Da Redação do MatoGrossoAoVivo | Com informações de Metrópoles
