Pesquisas iniciadas no fim da década de 1990 em Lucas do Rio Verde, no médio-norte de Mato Grosso, deram origem a um modelo produtivo que hoje sustenta a segunda safra de milho em todo o Cerrado brasileiro. O trabalho começou de forma modesta, conduzido pelos engenheiros agrônomos Clayton Bortolini e Egídio Vuaden, então à frente da recém-criada Fundação Rio Verde.
Naquela época, a entidade existia apenas no papel. O “laboratório” restringia-se a uma cadeira, uma mesa e um computador emprestados no escritório de uma fazenda. Sem área própria para experimentos, os pesquisadores firmaram acordo com o produtor rural Joci Piccini, que cedeu quatro hectares de sua propriedade para os testes iniciais. Com um trator, uma plantadeira e um pulverizador improvisados, os primeiros ensaios foram instalados em 1999.
Primeiros resultados e o nascimento do Show Safra
No ano seguinte, a Fundação montou seu próprio campo experimental na Fazenda Branca, área que mais tarde se transformaria em sede definitiva. Foi ali que surgiram os “Dias de Campo”, reuniões técnicas em meio às parcelas de pesquisa que evoluíram para o Show Safra, hoje o maior evento do agronegócio mato-grossense.
Em 2000, 21 experimentos de safrinha – denominação utilizada na época para a atual segunda safra – foram implantados com culturas de mamona, sorgo e milho. Um episódio pitoresco marcou o período: parte das espigas usadas nos estudos foi furtada por um produtor de pamonha da cidade, fato que arrancou risadas mas evidenciou como o cultivo ainda era visto como algo pontual e pouco valorizado.
Redução de espaçamento multiplica a produtividade
O avanço decisivo surgiu quando Clayton Bortolini testou o plantio do milho com o mesmo espaçamento da soja: 45 centímetros entre linhas, metade da distância tradicional de 90 centímetros. Aliada ao aumento da população de plantas, a alteração elevou a produtividade em até 50% sem acréscimo de custos. “Alguns produtores chegaram a me chamar de louco”, recorda o pesquisador. No ciclo seguinte, os números se repetiram e a técnica passou a ser adotada em toda a região.
O ajuste eliminou retrabalho nas plantadeiras, reduziu despesas operacionais e fez a média saltar de 60 para 90 sacas por hectare já no primeiro ano de adoção. Atualmente, 100% das áreas de milho em Mato Grosso e boa parte do Cerrado utilizam o mesmo espaçamento da soja, prática validada nos experimentos de Lucas do Rio Verde.
Integração com braquiária e janela ampliada
As pesquisas também estimularam o uso da braquiária como planta de cobertura, apoiando o sistema de plantio direto e melhorando a saúde do solo. A princípio recebida com cautela, a tecnologia hoje cobre milhões de hectares no Estado.
Paralelamente, o melhoramento genético encurtou o ciclo da soja, ampliando a janela para a segunda safra. A combinação de variedades mais precoces com manejo adequado consolidou o modelo de duas safras por ano, transformando Mato Grosso no maior produtor de milho do país.
Da pequena sala emprestada às colheitas recordes, a trajetória da Fundação Rio Verde demonstra como ciência, cooperação entre produtores e visão de futuro podem redefinir a agricultura. O legado iniciado em Lucas do Rio Verde se estende por todo o Cerrado, sustentando uma cadeia que hoje coloca o Brasil entre os líderes globais na produção de milho de segunda safra.
Da Redação do MatoGrossoAoVivo | Com informações de RDNews
