O Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) solicitou à Corregedoria-Geral da Polícia Civil a instauração de um procedimento administrativo contra o delegado Guilherme de Carvalho Bertoli, titular da Delegacia Especializada de Roubos e Furtos (DERF) de Cuiabá. A medida foi tomada após o órgão identificar supostas irregularidades e um possível falso testemunho prestado pelo delegado durante o julgamento do investigador da Polícia Civil Mário Wilson da Silva Gonçalves, acusado pelo homicídio do policial militar Thiago de Souza Ruiz.
O pedido foi formalizado pelos promotores do Núcleo de Defesa da Vida, que acompanharam o Tribunal do Júri realizado entre os dias 12 e 14 de maio deste ano, na capital mato-grossense. Segundo o documento encaminhado à Corregedoria, Bertoli teria apresentado uma versão dos fatos que se mostra incompatível com as provas e os elementos reunidos ao longo da investigação criminal, conduzida pela Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).
Contradições em depoimento e provas
De acordo com o ofício do Ministério Público, o delegado Guilherme Bertoli afirmou em seu depoimento no júri que recebeu uma ligação do investigador Mário Wilson, na qual este teria informado ter “matado um noiado”. Bertoli também relatou que, ao chegar ao local do crime, encontrou papelotes de cocaína próximos ao corpo da vítima, o policial militar Thiago de Souza Ruiz. Ele ainda mencionou que uma atendente teria afirmado que a droga caiu do bolso do PM falecido.
No entanto, o Ministério Público contesta veementemente essa narrativa. O órgão argumenta que essa versão dos fatos, especificamente a menção à droga e à ligação de Mário Wilson com essa descrição, nunca constou em nenhum dos documentos oficiais da investigação. Não há registros em boletins de ocorrência, autos de apreensão, laudos periciais ou nos depoimentos colhidos por outros policiais e testemunhas durante a apuração da DHPP. Além disso, testemunhas ouvidas pela Delegacia de Homicídios teriam apresentado relatos que divergem significativamente daqueles apresentados pelo delegado Bertoli.
Falhas na preservação da cena do crime
Os promotores também apontam outras condutas questionáveis por parte de Bertoli. O documento do MP destaca que o delegado teria falhado em preservar o local do crime, uma etapa crucial em qualquer investigação criminal para garantir a integridade das provas. Mais grave ainda, ele não teria realizado a apreensão da suposta droga que afirmou ter encontrado nas proximidades do corpo da vítima. Em vez de seguir os protocolos padrão, Bertoli teria ido ao encontro do investigador Mário Wilson e, posteriormente, o apresentou à DHPP já acompanhado de um advogado, o que levanta suspeitas sobre a condução inicial do caso.
Outro ponto de discórdia ressaltado pelo Ministério Público é o depoimento dos delegados André Eduardo Ribeiro e Guilherme Fachinelli, que também foram ouvidos durante o júri. Ambos negaram categoricamente terem recebido qualquer informação de Bertoli sobre a existência de entorpecentes ou o envolvimento da vítima com drogas. Para o MP, essas inconsistências indicam uma “criação posterior de narrativa dissociada da realidade probatória dos autos”, sugerindo uma tentativa de alterar a percepção dos fatos.
Extrapolação de funções e responsabilização
O Ministério Público ainda critica o delegado Bertoli por ter, supostamente, extrapolado suas funções ao emitir opiniões pessoais sobre o caso durante o julgamento. Essas opiniões, conforme o MP, contrariam as conclusões da investigação criminal e, inclusive, o processo administrativo disciplinar instaurado pela própria Corregedoria da Polícia Civil, que teria sugerido a demissão do investigador Mário Wilson da Silva Gonçalves.
Diante do exposto, o Ministério Público de Mato Grosso considera que as declarações prestadas pelo delegado Guilherme de Carvalho Bertoli podem configurar violação de deveres funcionais e, potencialmente, o crime de falso testemunho. O órgão solicitou à Corregedoria da Polícia Civil que apure detalhadamente a conduta funcional de Bertoli. Além disso, o caso será encaminhado a uma promotoria criminal específica para que seja analisada a eventual responsabilização penal do delegado pelos fatos narrados.
Da Redação do MatoGrossoAoVivo | Com informações de RepórterMT
