Operação Tomada de Contas identificou movimentações financeiras milionárias e retiradas de valores na agência bancária instalada dentro do Tribunal; seis pessoas foram presas preventivamente.
A investigação da Polícia Federal sobre um suposto esquema de desvio de recursos públicos no Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT) identificou pessoas próximas ao presidente da instituição, Sérgio Ricardo de Almeida, e ao procurador Grhegory Paiva Pires Moreira Maia, apontadas como integrantes do núcleo operacional da estrutura investigada.
Deflagrada na quinta-feira (29), a Operação Tomada de Contas resultou no cumprimento de seis mandados de prisão preventiva e 26 de busca e apreensão em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo. Entre os presos estão o presidente do TCE-MT e cinco pessoas investigadas por participação no suposto esquema.
Segundo informações detalhadas na decisão judicial, quatro investigados aparecem em imagens de câmeras de segurança realizando saques de grandes quantias na agência do Sicoob, instalada nas dependências do próprio Tribunal.
A investigação aponta que Gustavo Fernandes da Silva, Felipe José Glinke, Roseli Loss e Adriangelo Barros Antunes desempenhariam funções diferentes na movimentação e retirada dos recursos.
Saques de milhões e movimentações consideradas suspeitas.
De acordo com os elementos apresentados pela Polícia Federal, Gustavo Fernandes da Silva teria recebido aproximadamente R$ 15,9 milhões no período analisado. Apesar do volume financeiro, os investigadores apontaram que foram identificados apenas dois veículos registrados em seu nome, sem correspondência patrimonial conhecida para os valores movimentados.
Felipe José Glinke também aparece nas imagens realizando saques. Conforme a decisão judicial, ele teria atuado na observação do ambiente bancário para evitar que as operações chamassem a atenção de terceiros.
Um dos episódios descritos ocorreu em 23 de setembro de 2025. Ao perceber a presença de outra pessoa próxima aos caixas, Felipe teria sinalizado para que a operação fosse interrompida temporariamente, retomando o procedimento depois que o terceiro deixou o local.
Roseli Loss, apontada como pessoa de confiança de Sérgio Ricardo, teria desempenhado papel recorrente na retirada e circulação de dinheiro. Segundo a investigação, ela já realizava saques em contas vinculadas ao presidente do TCE-MT desde 2024.
A decisão menciona retiradas de R$ 200 mil em fevereiro de 2024 e R$ 340 mil em abril do mesmo ano. Em outubro de 2025, Roseli também teria se tornado procuradora bancária de Sérgio Ricardo.
Os investigadores ainda apontaram procedimentos em aparelho celular que interpretaram como possível utilização da biometria facial do presidente do Tribunal para operações bancárias.
Adriangelo Barros Antunes, ex-cunhado de Sérgio Ricardo, também é apontado como operador dos saques. Em uma das situações descritas, observações policiais indicaram que ele teria entrado na agência com uma mochila aparentemente vazia e saído com o objeto carregado, seguindo em direção às dependências do Tribunal.
A investigação também identificou transferências de valores para pessoas próximas a Adriangelo, incluindo familiares, circunstância que, segundo a decisão, pode indicar tentativa de ocultação de recursos.
Investigação aponta possível esquema de pagamentos paralelos.
A apuração teve origem em uma denúncia encaminhada ao Ministério Público Federal (MPF). O relato indicava que, após assumir a presidência do TCE-MT, em janeiro de 2024, Sérgio Ricardo teria suspendido contratos administrativos sob justificativa de contenção de despesas.
Entretanto, conforme a investigação, contratos de determinadas empresas teriam sido mantidos ou ampliados, enquanto outros fornecedores enfrentavam restrições. A suspeita é de que parte dos pagamentos realizados pelo Tribunal retornaria a pessoas ligadas à cúpula da instituição.
O MPF também identificou indícios de uma estrutura de pagamentos paralelos, com ordens bancárias destinadas a pessoas físicas por meio de canais utilizados para pagamentos a fornecedores, sem a correspondente divulgação no Portal da Transparência.
Segundo informações apresentadas pelo Ministério Público Federal, sete conselheiros investigados teriam recebido aproximadamente R$ 48,4 milhões em menos de dez meses. No mesmo período, o Portal da Transparência teria divulgado apenas R$ 2,2 milhões em pagamentos relacionados a esse grupo.
A investigação aponta ainda que Sérgio Ricardo recebeu cerca de R$ 15,4 milhões no período analisado, enquanto as retiradas de suas contas somaram aproximadamente R$ 15,6 milhões.
Conselheiros foram afastados.
Além das prisões, a operação resultou no afastamento dos conselheiros Guilherme Maluf e Alisson Alencar. O conselheiro aposentado Valter Albano, que exercia uma função no Tribunal, também foi alvo de medida de afastamento.
Ao todo, 15 investigados receberam medidas cautelares, incluindo restrições de acesso às dependências e aos sistemas do TCE-MT, proibição de contato entre os envolvidos e entrega de passaportes.
A decisão que autorizou as medidas foi proferida pelo ministro Og Fernandes, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), responsável pela supervisão da investigação em razão do foro por prerrogativa de função dos conselheiros.
Os fatos investigados podem configurar, em tese, crimes como peculato, corrupção passiva, concussão, inserção de dados falsos em sistemas de informação, organização criminosa e lavagem de dinheiro.
A Polícia Federal e o Ministério Público Federal continuam apurando o caso. As suspeitas ainda serão submetidas ao devido processo legal, e os investigados têm direito à ampla defesa e à presunção de inocência.
