Uma decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a derrubada do sigilo e impôs restrições ao senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo Lula no Senado. A medida, que atende a pedidos da Polícia Federal (PF), insere o parlamentar no centro de uma investigação que apura supostos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa, com envolvimento de gestores do Banco Master. A operação foi deflagrada nesta quinta-feira, 18 de abril.
investigacao: cenário e impactos
O processo tramita sob a Petição 16.229 no Distrito Federal, sendo um desdobramento da Operação Compliance Zero. O inquérito tem como foco a apuração de delitos financeiros, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, organização criminosa e outros crimes correlatos, atribuídos a diretores e operadores ligados ao Banco Master. De acordo com o relatório de André Mendonça, a PF solicitou a aplicação de medidas restritivas de natureza pessoal, distintas da prisão, e a suspensão de atividades econômicas de indivíduos e empresas identificadas no curso da investigação. O caso descreve uma suposta organização criminosa estruturada em diversos núcleos, com o objetivo de cometer fraudes financeiras, cooptar agentes públicos, ocultar patrimônio, lavar dinheiro e obstruir a fiscalização estatal.
Relação com o Banco Master sob escrutínio
A investigação foca em uma possível conexão ilícita entre gestores do Banco Master, notadamente Augusto Ferreira Lima e Daniel Bueno Vorcaro, e o senador Jaques Wagner. A Polícia Federal alega ter encontrado indícios de que o parlamentar teria recebido vantagens econômicas indevidas, seja de forma direta ou indireta, por meio de familiares, pessoas de confiança e estruturas societárias associadas ao grupo econômico investigado.
A relação entre Wagner e Augusto Ferreira Lima é descrita nos autos como antiga, próxima e caracterizada por um alto grau de confiança pessoal. Para a autoridade policial, essa proximidade teria facilitado tratativas reservadas para defender interesses privados do Banco Master. A representação da PF cita mensagens, áudios, chamadas de voz, encontros presenciais, deslocamentos em aeronaves e interações familiares como evidências da aproximação entre os envolvidos.
A apuração contra o senador Jaques Wagner foi organizada em três frentes principais. A primeira aborda a possível entrega de vantagens econômicas, com destaque para a aquisição do apartamento de número 1.702 no empreendimento Poème Horto, em Salvador. O segundo eixo investiga pagamentos e repasses à BN Financeira Ltda. e a outras empresas ligadas ao núcleo familiar do senador. O terceiro analisa indícios de atuação parlamentar de Wagner em pautas de interesse do Banco Master.
Entre os elementos considerados secundários na decisão, o documento menciona o suposto uso gratuito de aeronaves vinculadas a Augusto Ferreira Lima ou ao Banco Master, além do recebimento de ingressos de alto valor para shows no exterior. Contudo, os pontos de maior relevância criminal apontados são a aquisição do apartamento no Poème Horto e os pagamentos à BN Financeira Ltda.
Apartamento de R$ 2,45 milhões e outras vantagens
O imóvel em questão é tratado por André Mendonça como o ponto de maior densidade criminal da decisão. Conforme os autos, em 26 de novembro de 2024, Jaques Wagner teria enviado a Augusto Ferreira Lima o contato do gerente da Construtora Moura Dubeux em Salvador, informando que “a unidade é a 1702 e o preço é 2,45 mi”. No dia seguinte, o senador teria repassado o livro digital do empreendimento Poème Horto.
Na mesma data, Augusto realizou uma chamada de voz com Valério Marega Júnior e forneceu os dados do corretor, do empreendimento, da unidade e do valor, o que, para a PF, indicaria a cadeia de operacionalização financeira da compra. A aquisição formal do apartamento teria sido efetuada pela Epítome S.A., utilizando recursos de fundos vinculados ao grupo econômico investigado, em uma dinâmica que a PF descreve como compatível com a ocultação do beneficiário final do imóvel.
As negociações não teriam cessado mesmo após a deflagração da primeira fase da Operação Compliance Zero, prosseguindo por meio de Guilherme Henrique Sodré Martins, David Lopes Monteiro, Daniel Lopes Monteiro, Márcio Domingues dos Santos e André Pissolito Campos. Foram registradas reuniões presenciais, chamadas de voz, videoconferências e o envio de minutas contratuais relacionadas à cessão de direitos aquisitivos sobre a unidade.
Ao analisar a situação de Jaques Wagner, o ministro André Mendonça destacou que o senador é apontado pela Polícia Federal como o suposto beneficiário central das vantagens econômicas investigadas, figurando como agente público em favor de quem teriam sido estruturados pagamentos, benefícios e aquisições patrimoniais.
Em 16 de maio de 2025, aproximadamente seis meses após os primeiros contatos sobre o imóvel, Wagner encaminhou a Augusto uma mensagem de um filho ou filha solicitando dados do proprietário formal do apartamento para a emissão de Registro de Responsabilidade Técnica (RRT). A mensagem dizia: “Pai, bom dia! Para envio do projeto com as alterações no apartamento, é exigido também o envio do Registro de Responsabilidade Técnica (RRT). Para emitir esse RRT são necessários dados do proprietário: nome completo, CPF, endereço atual completo com CEP, endereço da obra. Consegue esses dados”. No dia seguinte, Augusto forneceu a Wagner o contato de David Lopes Monteiro. Para André Mendonça, esses elementos reforçam a plausibilidade da hipótese de que o imóvel estaria formalmente vinculado a um terceiro para dissimular a real titularidade.
Voos, shows e mensagens cifradas
A decisão detalha uma série de benefícios supostamente concedidos ao senador. Em outubro de 2023, Augusto teria disponibilizado uma aeronave particular para Wagner e seus familiares se deslocarem entre Salvador e a “Ilha da Paixão”, identificada como propriedade do banqueiro. A oferta de aeronaves não teria sido um evento isolado; em outra ocasião, Wagner teria solicitado a Augusto o contato de um piloto para ir ao Rio de Janeiro e recebeu o contato de “Breno Copiloto Banco”.
Em junho de 2023, Augusto teria instruído sua secretária a comprar ingressos para shows de uma cantora internacional em Los Angeles para familiares de Wagner. A compra foi atribuída à empresa Reag Investimentos S.A., totalizando R$ 63.339,00. Em novembro do mesmo ano, Wagner questionou Augusto sobre “ingressos de sábado” e recebeu arquivos para camarote. Ao pedir a ampliação para cinco entradas, Augusto respondeu: “Pronto amigo. Seguem os outros dois. Abs”.
Entre os investigados próximos ao senador, a decisão identifica Guilherme Henrique Sodré Martins, conhecido como “Tio Guiga”, como pessoa de confiança de Wagner e pai de Eduardo Mendonça Sodré Martins. Guilherme teria atuado como articulador entre o núcleo empresarial do Banco Master, o círculo pessoal do parlamentar e, em algumas situações, em interlocuções relacionadas ao gabinete parlamentar.
Em relação ao apartamento Poème Horto, Guilherme teria mantido contatos com Daniel Lopes Monteiro após a primeira fase da operação, incluindo reuniões presenciais, chamadas de voz, videoconferências e mensagens que a PF interpretou como possivelmente cifradas. Uma delas, enviada por Daniel, dizia: “A altura do vão é 2,45m”, frase que a PF associou ao valor do imóvel, de R$ 2,45 milhões. Guilherme respondeu: “Perfeito”.
Pagamentos ao núcleo familiar do senador
O segundo eixo da investigação aborda pagamentos e cobranças relacionados à BN Financeira Ltda., empresa associada ao núcleo familiar de Jaques Wagner. A Polícia Federal descreve diálogos em que Eduardo Mendonça Sodré Martins, identificado como enteado do senador, cobrava Augusto Ferreira Lima sobre pagamentos pendentes, mencionando boletos, notas fiscais, documentos a assinar e dificuldades financeiras. Augusto teria justificado a inadimplência pelo insucesso da operação Banco Master/BRB.
A autoridade policial apontou uma transferência de R$ 3,5 milhões para a BN Financeira Ltda. pela PKL One Participações S.A., pessoa jurídica vinculada ao núcleo de Augusto Ferreira Lima e administrada por Andréa Lima Novaes. Planilhas encontradas no aparelho de Daniel Lopes Monteiro registraram pagamentos a uma pessoa identificada como “Dudu”, apelido atribuído a Eduardo Mendonça Sodré Martins. Os valores registrados superavam R$ 2,34 milhões, realizados por meio de estruturas societárias interpostas.
Bonnie Toaldo Bonilha, apontada como cônjuge de Eduardo, é descrita como vinculada à estrutura societária da BN Financeira Ltda. e da BN Representações Tecnológicas Ltda. Para a PF, sua posição societária e familiar, combinada ao recebimento de valores expressivos, justificaria as restrições determinadas pelo ministro André Mendonça.
Da Redação do MatoGrossoAoVivo | Com informações de Conexão Política
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