A Polícia Federal localizou gravações que sugerem irregularidades em contratos do Governo do Tocantins para aquisição de cestas básicas e frangos congelados durante a pandemia de covid-19. Os áudios foram extraídos do telefone de um investigado na Operação Fames-19, deflagrada em 3 de setembro, que resultou no afastamento do governador Wanderlei Barbosa (Republicanos) por 180 dias.
Nas conversas, Paulo César Lustosa, conhecido como “PC” Lustosa, e o irmão dele, Wilton Rosa Pires, discutem supostos mecanismos para manter o esquema depois da mudança de gestão no Palácio Araguaia. “Sai da mão do [Mauro] Carlesse, entra na mão do Wanderlei… cê não imagina o esquema que esses caras tão montando”, diz Lustosa em uma das gravações.
Outro conjunto de áudios revela orientações para fraudar a prestação de contas da distribuição de cestas básicas. Os interlocutores planejam criar uma lista falsa com 1.500 beneficiários e produzir uma foto simulada, usando cestas “emprestadas”, para induzir órgãos de controle ao erro.
Alcance do prejuízo
De acordo com a PF, os contratos suspeitos somam R$ 97 milhões, com dano estimado de R$ 73 milhões aos cofres públicos. A investigação aponta que os desvios ocorreram entre 2020 e 2021, período em que o estado declarou situação de emergência em saúde e assistência social.
Parte dos valores teria sido lavada por meio de compra de gado, despesas pessoais e investimentos em imóveis de alto padrão. Mensagens obtidas pelos agentes indicam ainda o pagamento regular de propina, apelidada de “bênção”, preferencialmente em dinheiro vivo para dificultar o rastreamento. Segundo decisão judicial que autorizou a operação, eram comuns saques fracionados inferiores a R$ 50 mil no mesmo dia, método conhecido como smurfing, utilizado para escapar das comunicações obrigatórias ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Posicionamentos
A defesa do governador afastado afirma que Barbosa “não manteve vínculo de proximidade” com os investigados e jamais autorizou qualquer pessoa a agir em seu nome. Em nota, sustenta que os áudios provam que o gestor não aceita propina e remetem a práticas ligadas à administração anterior. O político reforça confiança no “devido processo legal” para comprovar inocência.
Paulo César Lustosa declarou, por meio de seus advogados, que os trechos divulgados foram retirados de contexto e não refletem a realidade. Ele nega participação em qualquer atividade ilícita e critica a condução do inquérito, alegando que a PF “prejudica a busca da verdade” ao apresentar gravações de forma fragmentada.
A primeira-dama Karynne Sotero, citada por ter sido casada com Lustosa, informou que está separada desde 2017 e que não mantém contato com o ex-marido. Ela afirma ser “incorreto e injusto” vincular sua imagem aos fatos apurados.
A defesa de Wilton Rosa Pires declarou não ter acesso integral aos autos e, por isso, optou por não se manifestar no momento.
O processo corre sob sigilo no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Enquanto isso, a Procuradoria-Geral e a Controladoria-Geral do Estado instauraram auditoria interna e repassaram documentos às autoridades federais, conforme orientação do governador afastado.
Da Redação do MatoGrossoAoVivo | Com informações de Metrópoles
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