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Investigação revela R$ 55 bilhões ocultados em 177 fundos fechados na Faria Lima

São Paulo (SP) – Uma apuração identificou 177 fundos de investimento sediados no eixo da avenida Faria Lima, principal centro financeiro do país, que operam sem auditoria confiável, mantêm estrutura com apenas um ou dois cotistas e concentram recursos em uma única empresa. Juntos, esses veículos somam patrimônio líquido de R$ 55 bilhões e foram apontados por órgãos de controle como potenciais instrumentos para ocultar fortunas de organizações criminosas, políticos e grandes devedores.

As mesmas características são investigadas pela Polícia Federal (PF) nas operações Quasar, Tank e Carbono Oculto, deflagradas em 28 de agosto, que miram esquemas de lavagem de dinheiro ligados ao setor de combustíveis e, em alguns casos, ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Também há questionamentos judiciais sobre uso desses fundos para blindar patrimônio em disputas que envolvem bancos e companhias de grande porte.

Instituições envolvidas

Seis gestoras e administradoras aparecem de forma recorrente nos documentos consultados: Altinvest, FIDD, Genial, Planner, Reag e Trustee. Todas foram citadas em inquéritos policiais ou acionadas na Justiça para revelar quem são os beneficiários finais dos fundos sob suspeita.

A Reag concentra 72 dos 177 fundos considerados “caixa-preta” e administra R$ 45 bilhões. Desses, 47 têm como único cotista outro fundo, criando camadas adicionais que dificultam rastrear a origem dos recursos. A gestora afirma atuar em conformidade com a lei e nega vínculo com grupos ilícitos.

A Planner sustenta que todas as carteiras sob sua responsabilidade possuem demonstrações financeiras auditadas e que fornece dados a autoridades mediante ordem judicial. Já a Trustee informa ter renunciado à administração de todos os fundos antes da operação de agosto, alegando desconformidades cadastrais. O Banco Genial declarou que o fundo investigado foi transferido para a instituição em 2024 e que as atividades seguem padrões de governança.

Como funcionam os fundos “caixa-preta”

Os documentos enviados à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) mostram que 71% dessas carteiras receberam parecer de auditoria com abstenção por falta de informações básicas; nos 29% restantes, não há auditoria independente. Cem fundos possuem apenas um cotista e 71 registram como investidor exclusivo outro fundo de investimento.

Especialistas da PF e da Receita Federal apontam que o modelo facilita a ocultação de valores: enquanto a CVM divulga a empresa investida, o nome do cotista permanece sob sigilo. Sem limite para o número de camadas, a identificação do real dono do dinheiro torna-se complexa ou impossível.

Em pelo menos 20 casos, os fundos analisados aparecem em investigações sobre fraudes fiscais, lavagem de recursos ou sonegação. Entre eles está um veículo ligado a empresários do setor de combustíveis; outro, conectado ao empresário João Appolinário, fundador da Polishop, é alvo de disputa com credores; e um fundo administrado pela Reag teria sido usado para ocultar a compra subfaturada de um terreno do Jockey Club de São Vicente (SP) em operação que envolve a rede atacadista Roldão.

Pressão por transparência

Com base no material apreendido em computadores e celulares das gestoras em agosto, a PF pretende aprofundar a investigação para descobrir se outras organizações criminosas se valeram da mesma estrutura. Por sua vez, a Receita Federal estuda exigir a indicação do CPF ou CNPJ do beneficiário final em todas as carteiras, medida que busca abrir a “caixa-preta” e reduzir espaço para práticas ilícitas.

Embora a legislação permita fundos com apenas um cotista e não imponha limitação de camadas, autoridades sustentam que a ausência de auditoria e a resistência em cumprir decisões judiciais configuram fortes indícios de irregularidades. Gestoras argumentam que cumprem normas vigentes e só fornecem dados protegidos por sigilo mediante ordem judicial ou solicitação de reguladores.

Enquanto o impasse persiste, os 177 fundos mantêm a gestão de R$ 55 bilhões em condições que, segundo a PF, favorecem a lavagem de dinheiro e a blindagem patrimonial, ampliando o debate sobre a necessidade de maior transparência no mercado financeiro.

Da Redação do MatoGrossoAoVivo | Com informações de Metrópoles

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