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A conquista do status máximo de sanidade na pecuária

Foto: Assessoria/Indea

 

Todos os que têm ligação com a pecuária bovina e com a suinocultura brasileiras estão de olho em uma reunião que começou ontem (25) em Paris e que vai terminar na quinta-feira (29). O ponto máximo de interesse será no último dia da 92ª Assembleia da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA), quando a entidade deverá certificar o Brasil como livre de aftosa sem vacinação. Este certificado será a coroação de uma longa e vitoriosa jornada contra o vírus trilhada por criadores, órgãos públicos e cientistas.

Com este reconhecimento internacional, o país poderá passar a fornecer proteína animal para um grupo de compradores que exige o grau máximo de sanidade e que, em geral, remunera bem por isso. A conquista será comemorada em um evento no dia 6 de junho na capital francesa que vai reunir produtores, indústrias da carne, parlamentares e governadores. No cardápio, churrasco brasileiro.

É um bom motivo para comemorar, seja na boca livre para os franceses ou aqui, à beira das churrasqueiras ou com o bom PF do dia a dia. Os brasileiros sabem que a carne de boi e de porco são, além de saborosas, seguras para o consumo. E só não comem mais por causa dos preços altos que persistem. O reconhecimento mundial pode propiciar para a pecuária um ciclo de mais valorização no mercado externo.

A aftosa é a doença mais temida da pecuária e provocou, durante muito tempo, grandes perdas econômicas ao país. Com a boca cheia de aftas – daí o nome da doença – os animais não conseguem comer e perdem peso, as vacas leiteiras também param a produção. Ela não é letal para os animais, mas os prejuízos são enormes, tanto os diretos quanto os indiretos devido aos bloqueios impostos  ao comércio com locais com foco da doença.

A doença não atinge apenas bovinos e suínos, ela também afeta búfalos, cabras e ovelhas. Se o vírus é eliminado, todas estas criações também ficam protegidas. O último caso da doença em bovinos no Brasil é de 2006, nos estados do Paraná e Mato Grosso do Sul. Em Mato Grosso o último registro é de antes, de 1996.

O combate articulado ao vírus começou nos anos 1970 com um pacote oficial de medidas que incluía campanhas de vacinação e a estruturação dos órgãos públicos de vigilância e de controle. O setor produtivo aderiu maciçamente e as respostas foram os níveis crescentes de imunização dos rebanhos até beirarem os 100% de cobertura por anos seguidos.

O Plano Estratégico do Programa Nacional de Erradicação da Febre Aftosa (PE-PNEFA) implementou o conceito de zonas livres, em que se considerou as especificidades regionais para que a imunização avançasse ano a ano, região por região, acompanhada do reconhecimento oficial dos resultados.

Inicialmente, veio a certificação de livre da doença com vacinação. Com um rebanho de 22 milhões de cabeças à época, Mato Grosso conquistou este patamar em 2001. Desde então, houve a valorização do rebanho, com mais investimentos em tecnologia, genética e manejo e, hoje, o estado detém o maior rebanho do Brasil, com 33 milhões de cabeças.

Santa Catarina foi o estado pioneiro que, em maio de 2007, conquistou o status internacional de Zona Livre de Febre Aftosa sem Vacinação. Além de Santa Catarina, atualmente somente o Paraná, Rio Grande do Sul, Acre, Rondônia e partes do Amazonas e de Mato Grosso têm este reconhecimento máximo. Em Mato Grosso, gozam desse status os municípios de Juína, Colniza, Aripuanã e Rondolândia.

Há um ano, todo o território brasileiro foi reconhecido como livre sem vacinação por meio de um anúncio auto declaratório do governo federal. Com mais um ano de trabalho, o Brasil chega agora a Paris para pleitear esta ascensão diante de mais de 180 delegações de outros países. Mato Grosso está representado por uma comitiva liderada pelo vice-governador Otaviano Pivetta e que conta com representantes do Indea, Acrimat, Acrismat, Famato, Instituto Mato-Grossense da Carne (Imac) e produtores rurais.

Sendo aceita a demanda brasileira, que inclui também a Bolívia como zona livre sem a necessidade de imunizante, a expectativa é de criação de um ambiente de negócios mais favorável, com o acesso da carne a mercados exigentes, como Japão e Coreia do Sul, o que pode até elevar os preços de exportações.

Espera-se também a ampliação das oportunidades de vendas para vários países, muitos com tratativas específicas em andamento, como Indonésia, Filipinas, Vietnã, Turquia, Egito e Marrocos. No caso da China, a esperança é de redução da tarifa de 12% paga pelo Brasil para exportar carne bovina, enquanto para países como a Austrália não há cobrança nenhuma por parte da China.

Com a suspensão da imunização, os pecuaristas sentirão no bolso outro reflexo positivo porque já não terão que gastar com as doses. São mais de 244 milhões de bovinos e bubalinos em cerca de 3,2 milhões de propriedades que não serão mais vacinados contra a aftosa.

Com o fim de um longo ciclo de vacinação, começa, porém, uma etapa de vigilância permanente e extrema para evitar a reintrodução do vírus. Os produtores, trabalhadores rurais, estudantes de veterinária e áreas afins devem continuar na mira de campanhas permanentes de educação sanitária. Todos devem receber orientação sobre a aftosa para que sejam capazes de identificar possíveis riscos e saibam eliminá-los a tempo.

E toda a sociedade poderá se orgulhar, enfim, de terem ficado no passado o sofrimento dos animais que adoeceram e os prejuízos dos criadores. E a persistência destes homens do campo merece ser aplaudida, ainda mais em tempos em que irresponsáveis contestam a eficácia das vacinas como recurso que salva vidas, traz saúde e prosperidade social.

*Os textos das colunas e dos artigos são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do eh fonte.

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