Em texto publicado no portal RDNews, o economista e assessor do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT) Maurício Munhoz Ferraz, em parceria com a pesquisadora Sara Nadur Ribeiro, defende que o futuro do estado depende de um olhar crítico sobre o passado. O artigo sustenta que a memória coletiva mato-grossense foi moldada por interesses econômicos e políticos que destacam o agronegócio e a expansão territorial, enquanto silenciam conflitos sociais, ambientais e culturais.
Segundo os autores, a construção histórica oficial costuma exaltar ciclos produtivos, grandes obras e personagens ligados à modernização. Esse recorte, afirmam, sustenta o discurso de “celeiro do mundo”, eficaz para o mercado, mas limitado para compreender a complexidade social local. Ferraz e Ribeiro argumentam que essa versão simplificada invisibiliza povos indígenas, populações tradicionais e trajetórias de migrantes que, desde a segunda metade do século XX, redesenharam o perfil demográfico de Mato Grosso.
No artigo, eles lembram que, antes da abertura de estradas e da expansão das monoculturas, o território já era habitado por diversos povos indígenas com sistemas próprios de organização. Apesar de serem parte constitutiva da identidade regional, esses grupos ainda ocupam lugar periférico na narrativa pública e, quando citados, aparecem muitas vezes como entrave ao progresso, observam os autores.
O texto também destaca a importância das migrações internas. Famílias vindas do Sul, Sudeste e Nordeste trouxeram práticas culturais e expectativas distintas, gerando uma identidade híbrida marcada tanto por adaptação quanto por tensões. De acordo com Ferraz e Ribeiro, esse encontro de experiências raramente é contemplado nas análises sobre desenvolvimento estadual.
Para os articulistas, o esquecimento de fatos históricos não ocorre por acaso: “A memória seletiva legitima projetos econômicos que simplificam a identidade mato-grossense à vocação produtiva, naturalizando a exploração intensiva do território e minimizando seus impactos sociais e ambientais”, escrevem. Eles avaliam que, sem debate crítico sobre o passado, o estado corre o risco de repetir desigualdades e conflitos.
Ferraz e Ribeiro defendem que recuperar vozes historicamente silenciadas não significa rejeitar o crescimento econômico, mas torná-lo mais abrangente. Na visão deles, compreender a memória como espaço de discussão, e não como monumento inquestionável, é condição para imaginar modelos de desenvolvimento capazes de enfrentar crises sociais, ambientais e culturais.
“Identidade não é herança fixa, e sim processo em construção”, reforçam. Para os autores, reconhecer contradições históricas fortalece a sociedade mato-grossense na elaboração de estratégias para o futuro, evitando que soluções fáceis repitam problemas já vividos.
Da Redação do MatoGrossoAoVivo | Com informações de RDNews
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