O comunicador e especialista em marketing Jefferson Silveira, 46 anos, encontrou na inteligência artificial um aliado para restaurar imagens antigas, criar vídeos e reacender o interesse dos cuiabanos pelo passado da capital. A iniciativa, divulgada na página “IA em Cuiabá”, começou a ganhar forma em junho de 2025, quando ele passou a substituir programas tradicionais de edição por ferramentas de IA capazes de colorir, animar e detalhar fotografias históricas.
A primeira publicação foi ao ar em 2 de julho de 2025, data que Silveira recorda por coincidir com o aniversário do irmão. A recepção imediata, segundo o criador, deve-se à sensação de proximidade provocada pelas imagens renovadas: “Parece que você volta no tempo”, relatou.
Histórias além da restauração
Mais do que recuperar arquivos visuais, o projeto busca contextualizar cada registro. Silveira afirma que Cuiabá guarda um patrimônio cultural pouco conhecido tanto pela elite quanto pela população em geral. Nas redes, ele combina fotografia, vídeo, texto e informações históricas para que os moradores compreendam melhor a cidade onde vivem. “É muito complicado você não conhecer a sua história, porque acaba não entendendo como a sociedade funciona”, afirmou.
Entre as publicações, três trabalhos se destacam:
- “Cuiabá há 100 anos” – Vídeo que animou fotos do início do século XX e revelou detalhes como trilhos na Rua 13 de Junho e o formato original da Catedral Basílica do Senhor Bom Jesus.
- Reconstrução do Cine Tropical – Considerado o cinema mais luxuoso do Centro-Oeste nos anos 1960, o prédio foi recriado a partir de uma pintura do artista plástico Victor Hugo, que produzia cartazes do local na época.
- Enchente de 1974 e o fim do bairro Terceiro – Produção que contrapôs a versão oficial do governo militar aos relatos de antigos moradores. O vídeo ultrapassou a marca de um milhão de visualizações e trouxe à tona memórias antes restritas a grupos específicos.
Pesquisa extensa e transparência
O processo de produção envolve busca em arquivos oficiais, jornais antigos, artigos da Universidade Federal de Mato Grosso, material do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso e do Arquivo Público. A história oral, amplificada por redes sociais, complementa as fontes tradicionais. Silveira sempre publica a imagem original ao lado da versão restaurada e indica a procedência do material para evitar dúvidas sobre autenticidade.
“A inteligência artificial dá a impressão de que tudo é mágico, mas o trabalho é demorado”, explicou. Cada vídeo exige rotinas de pesquisa, restauração, edição e várias tentativas até chegar ao resultado final.
A força das narrativas humanas
O autor não impõe recortes de classe ou status na escolha dos temas. Casos como o de Seu Lino — pedinte, deficiente visual e vítima de injustiça — recebem o mesmo espaço que figuras históricas como Mãe Bonifácia, conhecida por ações solidárias. “O que tem de humano, o que tem de diferente e o que está escondido é o que me interessa”, reforçou.
Futuro aberto e impacto coletivo
Embora a página não gere renda, o criador, que trabalha com geotecnologia, pretende continuar publicando histórias enquanto avalia eventuais desdobramentos, como livro ou curso sobre uso de IA em preservação cultural. “Talvez ainda não existam caminhos claros, porque essa aplicação da inteligência artificial é muito nova”, comentou.
Mesmo tocado de forma individual, o projeto já influencia a maneira como os cuiabanos enxergam o próprio passado. Silveira mantém o canal aberto a parcerias que contribuam para a memória e a cultura locais.
Da Redação do MatoGrossoAoVivo | Com informações de RDNews
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