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Crise no PSOL, sondagem para o governo, futuro no PT: o labirinto de Boulos

Cogitado nas últimas semanas para um eventual ministério do governo Lula, o deputado Guilherme Boulos (PSOL-SP) está num momento de refletir sobre o seu futuro político.

O deputado foi citado como um possível nome para a Secretaria-Geral da Presidência da República – responsável pela relação do governo com os movimentos sociais -, mas teria ouvido uma condição: que deixasse o PSOL e ingressasse no PT, de acordo com um colaborador do governo.

Boulos, no entanto, não teria concordado com essa ideia. Nem pegaria bem, avaliam políticos aliados. O deputado não tem dado entrevistas nem se manifestado sobre o suposto convite para o ministério ou sobre as polêmicas no partido, de acordo com sua assessoria.

Próximo de Boulos, um político do PSOL negou ter havido a condição para ele deixar o partido a fim de assumir um ministério, mas confirmou que houve sondagens do governo.

Boulos é apontado como um possível herdeiro do legado de Lula. Uma aposta da esquerda para o futuro. “Boulos tem 35 anos. Eu tinha 33 quando fiz minha primeira greve. Você tem futuro, meu irmão”, disse Lula, em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em abril de 2018, pouco antes de se entregar à Polícia Federal.

O possível ingresso de Boulos no PT foi ventilado, em 2024, quando ele concorreu à prefeitura de São Paulo, com o apoio do partido de Lula.

Boulos também teria descartado a proposta de deixar o PSOL porque, no partido, ele é o principal líder da corrente majoritária. É o político de maior expressão da legenda, pela qual foi candidato a presidente da República, em 2018, e duas vezes a prefeito de São Paulo.

Ele foi derrotado nas três oportunidades, mas alcançou maior projeção no cenário político nacional. No PT, hoje, ele teria de disputar espaços internamente com vários outros políticos e correntes abrigadas no partido há muito mais tempo, o que poderia lhe gerar desgastes, no entender de aliados.

Para esses aliados de Boulos, no entanto, a sondagem para que ele integre o governo Lula foi bem-vinda. Uma parte do PSOL, porém, se posicionou contra.

O diretório nacional do partido havia decidido adotar uma posição de “independência”, com apoio ao governo, mas descartando a possibilidade de assumir cargos, afirmou a deputada federal Fernanda Melchionna (RS). Sonia Guajajara é do PSOL e comanda o Ministério dos Povos Indígenas, mas a indicação partiu do movimento indígena, e não do partido, disse Melchionna.

Com o ex-presidente do PSOL Juliano Medeiros, Boulos esteve ao lado de Lula na sexta-feira, 14, na festa de aniversário da ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy. Marta foi vice na chapa de Boulos na última campanha à prefeitura paulistana.

Partido rachado
O PSOL hoje está rachado. O partido está dividido entre dois blocos: o grupo “PSOL de todas as Lutas”, liderado por Boulos e integrado por parlamentares como Talíria Petrone (RJ), Henrique Vieira (RJ) e Ivan Valente (SP), tidos como mais à direita e aliados do governo Lula; e o “Oposição de Esquerda”, liderado por parlamentares como Melchionna, Glauber Braga (RJ) e Sâmia Bomfim (SP), que estão mais à esquerda e combatem a política econômica do ministro Fernando Haddad (Fazenda).

Na votação do projeto que fixou as regras das emendas parlamentares, na quinta-feira, 13, Boulos não votou e, ao menos indiretamente, ajudou mais uma vez os governistas. Por isso, recebeu críticas de militantes do partido.

O deputado disse que estava em um evento em Guarulhos (SP) e ficou sem internet na hora da votação. Os parlamentares poderiam votar por meio de um aplicativo instalado no aparelho celular. Os demais deputados do PSOL votaram contra o projeto.

Ele foi cobrado e questionado por seguidores nas redes sociais. Militantes do partido mais à esquerda passaram a dizer que Boulos, apesar de sempre ter mantido o discurso contrário ao orçamento secreto, agora teria passado a apoiar o mecanismo. Nas redes sociais, ele chegou a apagar uma postagem por causa de críticas que recebeu.

Em fevereiro, uma crise foi iniciada no PSOL por causa da demissão do economista David Deccache da assessoria da liderança do PSOL na Câmara dos Deputados. Seu afastamento ocorreu, segundo militantes do partido, pelo fato de Deccache ser um duro crítico da política econômica do governo e manifestar essa posição em artigos e lives na mídia tradicional e em canais de esquerda na internet. A direção do partido afirmou que o economista foi demitido por fazer ataques públicos a parlamentares e à presidente da legenda, Paula Coradi.

Dois ministérios?
Uma das justificativas para que Boulos trocasse o PSOL pelo PT, a fim de assumir um ministério, é que o partido do deputado ainda é pequeno e Lula não poderia contemplá-lo com duas pastas, já que Sonia Guajajara ocupa uma – ainda que ela tenha sido indicada pelo movimento indígena, seria muito. No PT, parlamentares dizem que Lula pode ter lançado a ideia de Boulos integrar o seu ministério como um balão de ensaio para avaliar a repercussão e a receptividade.

Grupos mais à esquerda do PSOL também têm reclamado do deputado por ele, supostamente, defender a ideia de o PSOL integrar uma federação com o PT. A direção do partido não confirma essa informação. Hoje, a federação integrada pelo PT tem também o PV e o PCdoB. Outro partido que poderia engrossar esse grupo seria a Rede, da ministra Marina Silva (Meio Ambiente).

Para os grupos à esquerda, essa federação seria uma forma de Boulos já colocar o seu pé no PT. Na visão dessas correntes, a proposta enfraqueceria ainda mais o conteúdo “ideológico e programático” do partido.

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