Um intenso debate acerca do modelo de jornada de trabalho 6×1 e a proposta de redução da carga horária semanal mobiliza o país, com forte apoio popular à mudança. Enquanto lideranças políticas e empresariais manifestam preocupações sobre os impactos econômicos, trabalhadores cuiabanos que atuam na escala atual expressam o desejo por mais tempo de descanso e convivência familiar.
A escala 6×1, prevista na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), estabelece seis dias de trabalho consecutivos seguidos por um dia de folga. Embora a reforma trabalhista de 2017, no governo Michel Temer, não tenha alterado diretamente essa escala, outras flexibilizações implementadas na época contribuíram para tornar a jornada mais exaustiva. Atualmente, o Congresso Nacional discute propostas para reduzir o limite da jornada semanal. Uma delas, iniciativa do governo Lula, sugere a diminuição de 44 para 40 horas sem corte salarial. Outra proposta em análise, da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), visa uma jornada de 36 horas semanais. Setores como o comércio e o de serviços seriam os mais impactados por essas alterações.
A receptividade às mudanças é alta entre a população. Uma pesquisa Datafolha realizada em março revelou que 71% dos brasileiros apoiam o fim da escala 6×1. O levantamento indicou ainda que 47% dos empregados economicamente ativos seguem esse modelo semanal, enquanto os outros 53% trabalham até cinco dias por semana. Com a eventual aprovação das propostas, todos os trabalhadores passariam a ter dois dias de descanso por semana.
Resistência de Setores Políticos e Empresariais
Apesar do expressivo apoio popular, a medida encontra resistência significativa por parte de políticos e lideranças empresariais, que veem as propostas como “eleitoreiras” e alertam para possíveis consequências negativas na economia. Em Mato Grosso, diversas vozes se manifestaram contra a alteração. O ex-governador Mauro Mendes (UB) afirmou que “o fim da escala 6×1 vai quebrar o país, a medida é populista”. Vilmondes Tomain, presidente da Famato-MT, alertou que a “mudança da escala de trabalho vai causar desemprego e prejuízo para toda a economia”. O deputado federal José Medeiros (PL) previu que o “trabalhador vai se ferrar”, enquanto Daniel Teixeira, da Abrasel/MT, disse que o “empregado será o mais prejudicado com fim da escala 6×1”. O prefeito Abílio Brunini (PL) levantou a preocupação de que o “fim da escala 6×1 pode encarecer custo de vida e gerar desemprego: quem paga é o trabalhador”. Já Wenceslau Júnior, presidente da Fecomércio-MT, declarou que “o Brasil está preguiçoso, o país tem que trabalhar mais”.
A Voz dos Trabalhadores Cuiabanos
Em contraponto às preocupações dos setores econômicos e políticos, a coluna buscou ouvir diretamente os trabalhadores cuiabanos que vivem a realidade da escala 6×1, para entender suas expectativas em relação ao possível fim do modelo. As falas revelam um claro anseio por melhores condições de trabalho e qualidade de vida.
Neia, de 48 anos, zeladora de prédio, que folga de 15 em 15 dias, manifestou seu apoio. “Eu apoio. Mais um dia de folga é um benefício para mim e minha família. O serviço é muito corrido; não me preocupo com possível desemprego, acho até que vai diminuir os casos de falta no serviço”, disse ela.
Para Wanessa, de 32 anos, técnica de enfermagem, com folgas aos domingos, a aprovação seria muito positiva. “Tomara que seja aprovada, a gente trabalha bastante, sai cansada, dois dias a mais de folga vai ser bom, vamos ficar até mais dispostas. Meu tempo é só correria, saio daqui, tenho faculdade para ir e minha filha para cuidar”, explicou.
Luiz Henrique, 55 anos, técnico em radiologia com 30 anos na escala 6×1 e prestes a se aposentar, também vê a mudança com bons olhos. “Se for aprovado, vai ser bom porque a gente tem coisa para fazer que, muitas vezes, não dá. Eu já me acostumei com esse ritmo, mas acredito que os colegas que estão nessa escala vão ficar muito satisfeitos”, comentou.
Cleide, 49 anos, encarregada de setor de supermercado, que folga quatro vezes ao mês, acredita em um “novo tempo”. “O fim do 6×1 vai trazer um novo tempo para nós, porque o trabalho é estressante e há muita cobrança. Eu não temo desemprego não, só vejo benefícios para mim e os colegas que chegarão mais motivados para o trabalho”, afirmou.
Fran, de 28 anos, caixa de loja e com quatro folgas mensais, ressaltou a importância para a saúde e o bem-estar. “Eu aprovo, precisamos de mais tempo com a família, e isso fará bem para a saúde de todos. Semanas atrás uma colega enfartou aqui, no trabalho”, revelou.
Já Santana, 47 anos, frentista de posto de gasolina, que folga em média quatro dias por mês, destacou o impacto na vida familiar. “Teremos mais tempo para a família e até para o lado espiritual. Por causa do serviço, o filho da gente vê a gente dormindo, mas não vê acordando, saindo, então a gente fica mais fora do que com eles em casa”, concluiu.
A discussão sobre a jornada de trabalho e o descanso remunerado não é inédita no Brasil. Mudanças significativas, como a criação do 13º salário em 1962 e o adicional de 1/3 de férias em 1988, também enfrentaram resistência por parte de lideranças políticas e empresariais antes de serem implementadas e se consolidarem como direitos trabalhistas.
Da Redação do MatoGrossoAoVivo | Com informações de MatoGrossoAoVivo
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