Brasília — Um artigo publicado nesta quinta-feira (12) pela revista britânica The Economist acendeu o sinal de alerta em Washington, Bruxelas e Tóquio. O texto afirma que nações desenvolvidas correm o risco de passar por um processo de “brasileirização”, expressão usada para descrever crises fiscais marcadas por dívidas crescentes, promessas de gasto sem lastro e pressões políticas sobre bancos centrais — cenário que o Brasil enfrenta há décadas.
Instituições sob pressão
Segundo a revista, o fenômeno vai além de simples desequilíbrio orçamentário. Países ricos estariam repetindo sintomas vistos no Brasil, como o descumprimento de tetos de gastos, o enfraquecimento de regras institucionais e o acúmulo de obrigações previdenciárias sem fonte de custeio. A publicação ressalta que essa combinação ameaça tanto a autonomia das autoridades monetárias quanto a solvência dos governos.
Juros altos e investimento baixo
No caso brasileiro, o ciclo já está instalado. Para manter a inflação sob controle, o Banco Central mantém juros reais próximos de 10%, um dos maiores patamares globais. O resultado é um nível de investimento privado equivalente a 17% do Produto Interno Bruto (PIB), quase metade do registrado na Índia, assinala a revista.
Peso das pensões
O texto destaca que o Brasil destina 10% do PIB ao pagamento de pensões e aposentadorias — parcela idêntica à do Japão, apesar de ter população consideravelmente mais jovem. Sem reformas, essa fatia pode chegar a 16% do PIB em 2060. Além do volume, a distribuição do gasto é classificada como desigual: déficits semelhantes entre 13 milhões de servidores públicos e 40 milhões de trabalhadores do setor privado fazem do país uma “anomalia” mundial.
Judiciário e Forças Armadas concentram os maiores benefícios. O sistema judicial, por exemplo, custa 1,3% do PIB, tornando-se o segundo mais caro do mundo, impulsionado por aposentadorias generosas. A Constituição, que obriga o reajuste de pensões pelo salário mínimo, dificulta cortes sem alterações constitucionais.
Efeito cascata na dívida
Com recursos direcionados a benefícios, setores como infraestrutura e inovação perdem espaço no orçamento, perpetuando o círculo de baixo investimento e alta dívida. Hoje, o governo gasta cerca de 8% do PIB apenas com juros, observa a publicação.
O envelhecimento populacional também reduz a margem de manobra política. Eleitores mais velhos tendem a resistir a cortes ou mudanças em programas que os favorecem, prolongando a inércia fiscal. De acordo com estimativas citadas pela The Economist, a falta de credibilidade fiscal diminui o crescimento do PIB brasileiro entre 0,5 e 1 ponto percentual ao ano.
Lição para economias avançadas
Para os países desenvolvidos, a advertência é direta: se hoje há dificuldade para elevar gastos militares em 1% ou 2% do PIB, o impacto seria muito maior caso fosse necessário dobrar essa porcentagem somente para cobrir custos financeiros gerados pelo envelhecimento e pelo aumento da dívida.
O artigo conclui que esses governos terão de escolher entre enfrentar interesses organizados para reformar despesas voltadas à população idosa ou aceitar um futuro de austeridade prolongada e estagnação econômica — exatamente o dilema que marca a experiência brasileira.
Da Redação do MatoGrossoAoVivo | Com informações de Conexão Política
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